O SábiØ - capítulo 1

A luminosidade controlada não permitia avaliar se era dia ou noite, se havia sol ou se lá fora chovia. Todos aguardavam maquinalmente. A música monocórdica era acolhida com perfeição pelo isolamento acústico do revestimento que simulava madeira natural nas paredes, e também pelo tapete felpudo que envolvia o ambiente de forma homogênea. De tão suave, a melodia parecia emanar dos próprios corpos.

 

    Na grande tela belas paisagens de uma natureza há muito extinta eram projetadas. Águas transparentes, mares de infinitos azuis e verdes, pássaros voando. A temperatura negativa do ambiente físico era de certa forma incompatível com os dias ensolarados e tropicais apresentados. Dali vinham as únicas cores até onde os olhos alcançavam, com excessão das garrafas com líquido rosa deixadas à disposição dos convidados sobre a mesa no canto do saguão. Eram beges o piso que imitava pedra polida, as cortinas translúcidas, o estofamento dos móveis, os trajes, a pele.

 

    Cada um olhava de forma fixa para sua própria minitela aonde conversavam por meio de uma biblioteca de ilustrações semi-infantis, com aqueles que estavam ausentes fisicamente. Sobre os que estavam presentes, era como se não estivessem. Guardavam segura distância uns dos outros, algo em torno de noventa centímetros. E mal se entreolhavam.

 

    Mesmo assim era possível sentir a cadência de suas respirações, alinhadas no nível energético dos quase cinco mil humanos de elite que ocupavam aquele espaço monocromático projetado para a tranquilidade e para o bem-estar. Se comportavam exatamente conforme previsto, em mais um evento de sucesso com planejamento dos líderes cinza. Talvez um pequeno detalhe, percebido apenas pelos narizes mais delicados, destoava ligeiramente do conjunto: enquanto aguardavam o início da palestra imersos em um aroma que lembrava folhas molhadas, uns poucos fungavam, como se o odorizador estivesse um tom acima do ideal.

 

    Uma pequena alteração no painel luminoso foi suficiente para que todos se dirigissem à escada que dava acesso ao pavimento superior, onde, no grande auditório circular o sábio discursaria sobre os animais e plantas que um dia existiram no planeta. O tema parecia atrair cada vez mais interessados, e gente cada vez mais jovem. Acompanhando o mapa de assentos mostrado em suas minitelas, de forma muito eficiente os convidados se acomodaram sem qualquer ruído em torno do cilindro de projeção.

 

    Enquanto os últimos se sentavam, o SábiØ, recolhido em seu camarim fitava a tela em branco, como se duvidasse da apresentação que ele mesmo havia preparado nas décadas anteriores. Tudo o que ele projetasse ali seria magnificado para o público do auditório. Este, por sua vez, poderia através de suas minitelas se ligar aos inúmeros contatos e distribuir a palestra em tempo real. Seu alcance portanto era bem maior que o número de presentes.

 

    Era exatamente sobre isso que refletia o SábiØ quando teve a impressão que a luz do teto havia piscado. a importância do que ele tinha a dizer, na quantidade de pessoas que estariam conectadas àquela hora, em tantas outras que veriam esta apresentação no futuro. Ele era um dos poucos que haviam sido preservados intactos para contar a história do passado à eternidade. Sabia o quanto era importante para todos os que estavam ali, o fato dele ter efetivamente vivido numa época com plantas naturais e animais não-humanos, com água limpa e ar incolor. Tinha consciência da importância de seus relatos, e de ser a prova viva e material daquilo que havia há muito sido extinto na Terra.

 

    Naquele momento ele tinha o aspecto cansado, não fisicamente porque seu corpo mantido vivo para sempre pela ciência não envelhecia há séculos. Seu cansaço era mental. Já havia palestrado inúmeras vezes sobre o mesmo assunto. Hipnotizava a plateia com detalhes pitorescos que talvez não fizessem muito sentido no momento atual. Mas esse era o ponto alto do entretenimento, já que as pessoas haviam perdido a capacidade de sonhar. Quanto mais a audiência se deleitava com as imagens de girafas, baleias e cogumelos - mais a melancolia se apoderava dele. Em seu tempo, era um homem comum, a quem foi oferecida a vida eterna. Talvez por não pensar muito sobre o assunto, ou porque temia mesmo morrer, acabou aceitando assim viver. Era uma tarefa simples, falar sobre o seu tempo. Nem tanto para ouvir suas histórias vinha a multidão, a grande maioria se interessava mesmo naquela figura primitiva imersa em seus hologramas.

 

    A pequena luz vermelha acendeu no camarim, um sinal que seria o mesmo em qualquer auditório do planeta em que ele se apresentasse, comunicava que poderia iniciar sua palestra, todos estavam atentos e o transmissor de realidade virtual ligado. Ele pensou em começar, como na última centena de apresentações com a historia do labirinto de samambaias que existiu em Polis34. Nele, antes de entrar, a pessoa se sentava em uma cadeira e se olhava no espelho; atravessava o percurso, e ao fim ela novamente deveria se ver em outro espelho, avaliando o que havia aprendido no caminho. 

 

    Em épocas remotas, o ato de se olhar no espelho tinha um sentido muito diferente do atual, o espelho apenas refletia a própria imagem, sem envia-la automaticamente às minitelas dos outros. Nesta parte, alguns ficavam confusos por não compreenderem a função do espelho em si, uma vez que este não era conectado à rede. Ao mesmo tempo, outra parte do público buscava respostas em suas minitelas sobre auto-avaliação, um conceito completamente novo uma vez que, desde que se lembravam suas imagens eram avaliadas pelos outros.

 

    Neste momento, perdido em seus pensamentos, o sábio catalogava mentalmente a reação padrão de seu público. Se perguntava qual seria a razão de viver eternamente se não para ensinar algo à alguém. Então, ao invés de conectar suas luvas de interação holográfica, e vestir o capacete polifônico, ele saiu caminhando do camarim em direção ao cilindro no centro do palco. A platéia ficou em estado de choque com as pupilas muito dilatadas ao vê-lo ali, em tamanho real e ao vivo. Algo que nunca havia sido registrado em centenas de apresentações. Várias pessoas demoraram uma fração a mais que o normal para apontar suas minitelas na direção do homem de cabeça pequena e iniciar a transmissão. Talvez, as mais evoluídas, tenham mesmo previsto que na sequência um animal com pelos e patas ou uma flor colorida seriam materializados logo à frente de seus olhos. 

 

    Os batimentos cardíacos do grupo aceleraram em uníssono, em parte porque assim desejava a produção, que reagiu de forma espetacular à aparição imprevista acendendo todas as luzes do palco na direção do SábiØ. A música de fundo também foi diminuindo gradualmente, até que o completo silêncio fizesse com que todos pisacassem mais devagar. Houve um ligeiro aumento na atividade interna dos corpos, causando elevação da temperatura ambiente em dois graus celsius quase instantaneamente. Se fosse possível identificar emoções na feição das pessoas, ansiedade seria ela. Embora a maior parte dos presentes fosse composta por estudiosos e tidos como cultos para a época, nenhum dos ouvintes soube como reagir quando o sábio sem a interface de uma tela, se dirigiu à platéia, olhou diretamente para alguém e disse algo com sua boca.

 

 

 

 

 

                                                                                                texto: Patricia Borges

O SábiØ - capítulo 2

O caso mais grave de desequilíbrio registrado naquele dia pelos paramédicos que atenderam o público no AlphateatR_185 foi rapidamente arquivado. Na ficha do paciente PPR_V2R foi assinalada a opção "superaquecimento do lobo temporal". No mesmo arquivo, a caixa verde representando " procedimento realizado com sucesso" também ficara acesa. 

No campo negro destinado às anotações complementares havia um asterisco com a palavra Insula. Uma bolinha entre parênteses. Detalhe que despertou a curiosidade do Dr. ArchisT ao analisar os arquivos do paciente exatos dois meses após a palestra traumática.

Embora os funcionários cinza tivessem contornado o imprevisto da apresentação com habilidade, chegando mesmo a convencer uma minoria que a fala do SábiØ fazia parte do espetáculo, os líderes instruíram seus subordinados com algumas determinações. A saber: até nova ordem o SábiØ número 107 deveria ficar isolado do contato público. Todas as palestras à partir daquela data deveriam ser pré-gravadas e seu conteúdo pré-aprovado por uma comissão recém formada para esta finalidade. No que diz respeito ao Dr. ArchisT, seria sua missão individual e sigilosa desenvolver um relatório de uma página com trinta linhas e 3500 caracteres em corpo doze, sobre o ocorrido com o paciente PPR_V2R.

Todos os presentes, incluindo o SábiØ e os organizadores, ao deixar o AlphateatR_185 após a palestra tiveram sua memória recente apagada. Um procedimento rotineiro, realizado em caso de necessidade pelos pórticos de acesso automatizados nos ambientes públicos. Sempre que necessário, o sistema que era programável por tempo, apagava sem qualquer desconforto as lembranças arquivadas no hipocampo cerebral. Podendo ou não substitui-las por música.

Não era raro ver pessoas que sequer se conheciam, movendo-se num mesmo ritmo enquanto andavam na rua. Neste caso específico, por questões de segurança se determinou que dez minutos seria tempo suficiente. O ideal seria não deixar margem para alguém se lembrar do ocorrido. Ao mesmo tempo, evitar riscos desnecessários ao apagar algo importante muito além daquela memória específica. 

Este tempo não havia sido determinado pelo Dr., e sim pelos líderes. E seguia uma norma do Departamento de Real Saúde Mental que levava em consideração a capacidade desenvolvida por alguns humanos de memorizar eventos antes mesmo que ocorressem. 

Casos controversos relacionados à perda de memória recente eram tratados no quadragésimo nono andar do PoliospitaL, lá ficavam os programadores de acesso. De maneira simplificada: o reclamante preenchia um protocolo online com a data do evento que apenas ele se lembrava e, ao passar por um pórtico qualquer na cidade tinha sua memória específica apagada. Não percebia quando isso ocorria, nem se recordava da solicitação naturalmente. Desta forma todos seguiam felizes e lembravam-se das mesmas coisas.

Enquanto caminhava pelo corredor iluminado com antiquadas luzes LED que puxavam para o tom magenta, o Dr. ArchisT percebia o efeito visual da lâmpada na pele das pessoas. Tinha certeza que elas ficavam esverdeadas. Fazia este percurso subterrâneo já há uns quinze minutos e observava todos que cruzavam o seu caminho. Se perguntava se este seria apenas um efeito ótico, e andava em direção ao seu cubo-escritório que ficava no oitavo subsolo. Quase na porta do último elevador, passou por uma mulher com a tez um pouco mais amarelada que o normal. Ali embaixo as regras sociais eram ligeiramente mais informais. Mesmo assim, não ele pode deixar de notar o desconforto nas pupilas da moça ao ser observada. 

Entrou sozinho no elevador. Agora mirava sua minitela com o arquivo-prontuário do paciente PPR_V2R e durante a descida, que era lentíssima em função da economia de energia solar, aproveitou para revisar as poucas informações ali contidas. Havia feito algumas anotações que considerava relevantes, sobre o procedimento que realizaria no enfermo em busca de anomalias cerebrais. Foi quando percebeu que em "procedimento realizado com sucesso" constava a data de amanhã.

 

texto: Patricia Borges

Naquela Manhã

Ao passar por ela naquela manhã, notei que vestia lilás.

Nos últimos 24 anos nossos caminhos se cruzavam pontualmente às 6:15h da manhã. Ao atravessar a Avenida dos Passos era certo que passaria por aquela figura esguia, altiva, de semblante leve, envolta em seus pensamentos. Em todos estes anos, jamais trocamos uma palavra.

No início ensaiei um leve sorriso, um aceno de cabeça, mas depois compreendi que um breve olhar de reconhecimento seria confortável o suficiente. Compartilhávamos algo em nossa rotina. Toda a paisagem de nossa vizinhança cinza era por nós vista em ordem inversa naquele percurso matinal. Para mim, primeiro surgia o bar com sua calçada esburacada e vestígios da noite anterior, depois vinha a loja de ferragens com sua porta de ferro fechada à cadeado e graxa, em seguida o terreno aonde ficavam os latões de lixo e os gatos do senhor Albacete e, por último o muro grafitado da escola - único remedo de alegria por ali.

Ela parecia encolher ligeiramente a cada ano. Mas poderia ser apenas impressão minha. 

O passo era o mesmo, seu ritmo sempre constante. O que me chamava à atenção era o fato de sempre vestir rosa choque. Independente da época do ano. Mudavam as peças, porém nunca o tom. Mudava o corte à moda da época, mas o pink estava sempre presente, monolítico. Houve uma singela modificação no visual em todos estes anos, há alguns meses ela acrescentou ao conjunto um par de óculos de grau com armação rosa em estilo retrô.

Jamais soube para onde ela ia. Mas sabia onde vivia. Em outros momentos do dia a vi entrando no edifício número 16 da Rua ao Lado.

Por vezes me pegava imaginando como seria o interior de seu apartamento. Criava em minha mente um ambiente inteiro cor de rosa, e por longas horas me perdia no detalhes fictícios da decoração monocromática. Confesso que este pensamento ocupou minha mente inúmeras vezes, mesmo antes de avistá-la na rua pela manhã. Móveis, piano, cortinas, flores, copos, paredes, telefone, torradeira e geladeira no mesmo tom pink. Devia encomendar objetos especialmente para si, tingidos com seu tom favorito. Eu imaginava almofadas felpudas cor de rosa sobre o sofá do mesmo tom. As toalhas do banheiro, e provavelmente seus azulejos em composé. Quem sabe uma luminária com lâmpada rosa no cantinho da sala. Ah, a colcha de sua cama seria seguramente rosa. Sua banheira, seus sais de banho. Me imaginava explorando a intimidade de seu lar por pura curiosidade. Provavelmente viveria só. Talvez com um animal de estimação, uma calopsita (rosa). Ou um gatinho com um lacinho de fita pink no pescoço.

Há alguns dias percebi um ligeiro atraso. Quase meia quadra de diferença daquele ponto em que eu poderia mesmo marcar com giz no chão, a linha imaginária que me assegurava de estar no caminho certo e principalmente na hora certa desde que me mudei para o bairro no início dos anos 90. Este pequeno atraso, imperceptível aos olhos dos demais, representava em meus cálculos algo em torno de trinta segundos. Ela poderia ter diminuído a velocidade de seus passos, ou saído de casa mais tarde que o habitual. Porque eu, era certo, estava no horário.

* Texto: Patricia Borges

... (continua) ...

A Competição

Franz acordou naquela manhã de verão com várias certezas. 

Enquanto se espreguiçava em sua cama macia e conferia a coleção de medalhas penduradas na prateleira do quarto, decidiu que sua primeira providência ao descer para o café seria abrir um espaço na estante da sala para acomodar o novo troféu. Seria bem ao centro, sobre a lareira, ele decidiu. O primeiro prêmio da prova mais importante que até então participara, mereceria um local de destaque no cômodo. 
Sua mãe havia retirado os enfeites em cristal e as porcelanas da estante no ano anterior, para que todo o móvel fosse ocupado com os troféus do atleta mirim que se acumulavam. O verdadeiro orgulho da casa.

Ele sabia que estava preparado para a prova. Que era o corredor mais veloz. O preferido do treinador. Tinha mesmo consciência de ser invejado por outros alunos da PraterSchulle por seu desempenho na pista. E de certa forma, enquanto competia se sentia impulsionado por essa raiva dos meninos que não acompanhavam seus passos.

Com um leve sorriso no rosto, ainda deitado se imaginava posando para as fotos no alto do pódio. Mãos ao alto levantando o pesado troféu dourado com aquele veludo vermelho ou azul por baixo, gostoso de segurar. Se o tecido fosse azul, pensou, sua mãe diria algo como: "Olha que linda ficou a foto, Franz! Tudo combinando: a cor do seus olhos, com o troféu e também o uniforme... Amei, meu herói, parabéns!" 
A mãe era assim, um tanto empolgada. Certa vez ele encontrou umas fotos antigas (fotos de verdade - impressas em papel fosco) dentro uma caixa velha no armário do quarto de hóspedes. Nelas a mãe usava um uniforme de corrida com brasão da escola. Ele entendeu que quando criança ela também competia, mas achou melhor guardar as fotografias e nunca mencionou que as havia visto.

Lembrava disso quando justamente ouviu a voz dela a chamá-lo para o café da manhã!

Em dias assim ele se sentia um pequeno rei. Desceria a escada e veria a mesa preparada com frutas, pães, vitamina e tudo mais o que ele adorava. Seus pais sorridentes o receberiam com palavras de motivação, perguntando se havia dormido bem. O pai faria alguns comentários sobre a importância da técnica da passada perfeita. Enquanto Hanna trocaria mensagens ao celular com o namoradinho que iria encontrar nas arquibancadas do estádio. Todos ainda estudavam na escola municipal, mas a competição com alunos de toda Berlim seria na pista olímpica da universidade. Por um instante tentou lembrar o nome do namorado da irmã mas não se concentrou muito nisso, seguiu seu plano e antes de entrar na copa reorganizou rapidamente os troféus.

Às 13h em ponto, conforme estabelecido no último cronograma do senhor Arnold, já estava reunido com sua equipe na área restrita para atletas. Se sentia calmo e confiante em meio àquela agitação. Por um instante lhe ocorreu que não imaginava que o espaço fosse assim tão grande, e sentiu uma pontinha de ansiedade. Como nunca, ao passar de carro com seu pai pelo lado de fora do estádio, havia pensado no tamanho real da pista que iria enfrentar? 
Ouviu baixinho em sua memória o treinador que no início do ano lhe dissera:
"Não basta o campeão estar na sua cabeça, Franz. Precisa estar em suas pernas. Você não está se dedicando aos exercícios como deveria."
Franz sabia que isso não era verdade. As corridas eram uma prioridade em sua vida. Ele era o melhor e chegaria em primeiro lugar. 
Pensando bem, assim que descesse do pódio teria uma conversa séria com o pai. O senhor Arnold precisava ser substituído. Ele era muito antiquado. Era um homem velho, quase da idade do pai, não gostava de tecnologia e pior, ficava dividindo sua atenção com os outros meninos. Já era hora de ter um treinador só para ele. Como todo grande atleta.

Com esta ideia em mente se dirigiu com o grupo para a linha de largada. Deveria resolver isso o quanto antes, pensava. Até porque neste exato momento, o próprio lhe repreendia com um olhar muito severo. Será que já imaginava que seria substituído? Provavelmente. Seria para sempre o treinador do timinho da escola.

Seus olhos percorreram o estádio, e a arquibancada com a família. Os olhares carinhosos da mãe, tensos do pais e absortos da irmã. Os avós também vieram! E os Friedman, vizinhos da casa da frente. À medida que se sentia prestigiado com a presença de todos, também esquecia a escala do estádio que no instante anterior parecia lhe intimidar. E isso era positivo. 

O barulho do tiro o forçou a concentrar. Foi tomado pelo bombardeio de cores e sons, o coração disparado. As pernas sem controle. Ao mesmo tempo em que os rostos passavam por ele em sequência, lhe faltava ar. A respiração se tornava difícil e a força aos poucos se esvaia. Faltavam apenas alguns metros para a marca de chegada. O corpo se comportava exatamente como previsto: impulso, ritmo e energia. Piscou longamente, pelo menos foi assim que percebeu o momento, piscou uma, duas, três vezes. E chegou. Desacelerou. 

Ouvia palmas e assobios. Ainda inebriado não entendia bem as expressões nos olhares alheios. Levou alguns segundos para entender tudo o que se passou. Foi o segundo a ser chamado ao pódio, em seguida ao quinto colocado. Com perplexidade, ódio e muita raiva recebeu um troféu dourado pelo quarto lugar. Agora sim o treinador deveria ser substituído. Tinha absoluta certeza disso. Gostaria de substituir também a família, os vizinhos e todos aqueles que olhavam para ele com pena, orgulho e zombaria. Olhava de soslaio para as letras gravadas no diminuto troféu, sem coragem para encará-lo: 4o lugar. E imaginava aquilo, no local de destaque que lhe era reservado na estante. 

 

(Autora: Patricia Borges)