A Competição

Franz acordou naquela manhã de verão com várias certezas. 

Enquanto se espreguiçava em sua cama macia e conferia a coleção de medalhas penduradas na prateleira do quarto, decidiu que sua primeira providência ao descer para o café seria abrir um espaço na estante da sala para acomodar o novo troféu. Seria bem ao centro, sobre a lareira, ele decidiu. O primeiro prêmio da prova mais importante que até então participara, mereceria um local de destaque no cômodo. 
Sua mãe havia retirado os enfeites em cristal e as porcelanas da estante no ano anterior, para que todo o móvel fosse ocupado com os troféus do atleta mirim que se acumulavam. O verdadeiro orgulho da casa.

Ele sabia que estava preparado para a prova. Que era o corredor mais veloz. O preferido do treinador. Tinha mesmo consciência de ser invejado por outros alunos da PraterSchulle por seu desempenho na pista. E de certa forma, enquanto competia se sentia impulsionado por essa raiva dos meninos que não acompanhavam seus passos.

Com um leve sorriso no rosto, ainda deitado se imaginava posando para as fotos no alto do pódio. Mãos ao alto levantando o pesado troféu dourado com aquele veludo vermelho ou azul por baixo, gostoso de segurar. Se o tecido fosse azul, pensou, sua mãe diria algo como: "Olha que linda ficou a foto, Franz! Tudo combinando: a cor do seus olhos, com o troféu e também o uniforme... Amei, meu herói, parabéns!" 
A mãe era assim, um tanto empolgada. Certa vez ele encontrou umas fotos antigas (fotos de verdade - impressas em papel fosco) dentro uma caixa velha no armário do quarto de hóspedes. Nelas a mãe usava um uniforme de corrida com brasão da escola. Ele entendeu que quando criança ela também competia, mas achou melhor guardar as fotografias e nunca mencionou que as havia visto.

Lembrava disso quando justamente ouviu a voz dela a chamá-lo para o café da manhã!

Em dias assim ele se sentia um pequeno rei. Desceria a escada e veria a mesa preparada com frutas, pães, vitamina e tudo mais o que ele adorava. Seus pais sorridentes o receberiam com palavras de motivação, perguntando se havia dormido bem. O pai faria alguns comentários sobre a importância da técnica da passada perfeita. Enquanto Hanna trocaria mensagens ao celular com o namoradinho que iria encontrar nas arquibancadas do estádio. Todos ainda estudavam na escola municipal, mas a competição com alunos de toda Berlim seria na pista olímpica da universidade. Por um instante tentou lembrar o nome do namorado da irmã mas não se concentrou muito nisso, seguiu seu plano e antes de entrar na copa reorganizou rapidamente os troféus.

Às 13h em ponto, conforme estabelecido no último cronograma do senhor Arnold, já estava reunido com sua equipe na área restrita para atletas. Se sentia calmo e confiante em meio àquela agitação. Por um instante lhe ocorreu que não imaginava que o espaço fosse assim tão grande, e sentiu uma pontinha de ansiedade. Como nunca, ao passar de carro com seu pai pelo lado de fora do estádio, havia pensado no tamanho real da pista que iria enfrentar? 
Ouviu baixinho em sua memória o treinador que no início do ano lhe dissera:
"Não basta o campeão estar na sua cabeça, Franz. Precisa estar em suas pernas. Você não está se dedicando aos exercícios como deveria."
Franz sabia que isso não era verdade. As corridas eram uma prioridade em sua vida. Ele era o melhor e chegaria em primeiro lugar. 
Pensando bem, assim que descesse do pódio teria uma conversa séria com o pai. O senhor Arnold precisava ser substituído. Ele era muito antiquado. Era um homem velho, quase da idade do pai, não gostava de tecnologia e pior, ficava dividindo sua atenção com os outros meninos. Já era hora de ter um treinador só para ele. Como todo grande atleta.

Com esta ideia em mente se dirigiu com o grupo para a linha de largada. Deveria resolver isso o quanto antes, pensava. Até porque neste exato momento, o próprio lhe repreendia com um olhar muito severo. Será que já imaginava que seria substituído? Provavelmente. Seria para sempre o treinador do timinho da escola.

Seus olhos percorreram o estádio, e a arquibancada com a família. Os olhares carinhosos da mãe, tensos do pais e absortos da irmã. Os avós também vieram! E os Friedman, vizinhos da casa da frente. À medida que se sentia prestigiado com a presença de todos, também esquecia a escala do estádio que no instante anterior parecia lhe intimidar. E isso era positivo. 

O barulho do tiro o forçou a concentrar. Foi tomado pelo bombardeio de cores e sons, o coração disparado. As pernas sem controle. Ao mesmo tempo em que os rostos passavam por ele em sequência, lhe faltava ar. A respiração se tornava difícil e a força aos poucos se esvaia. Faltavam apenas alguns metros para a marca de chegada. O corpo se comportava exatamente como previsto: impulso, ritmo e energia. Piscou longamente, pelo menos foi assim que percebeu o momento, piscou uma, duas, três vezes. E chegou. Desacelerou. 

Ouvia palmas e assobios. Ainda inebriado não entendia bem as expressões nos olhares alheios. Levou alguns segundos para entender tudo o que se passou. Foi o segundo a ser chamado ao pódio, em seguida ao quinto colocado. Com perplexidade, ódio e muita raiva recebeu um troféu dourado pelo quarto lugar. Agora sim o treinador deveria ser substituído. Tinha absoluta certeza disso. Gostaria de substituir também a família, os vizinhos e todos aqueles que olhavam para ele com pena, orgulho e zombaria. Olhava de soslaio para as letras gravadas no diminuto troféu, sem coragem para encará-lo: 4o lugar. E imaginava aquilo, no local de destaque que lhe era reservado na estante. 

 

(Autora: Patricia Borges)