Naquela Manhã

Ao passar por ela naquela manhã, notei que vestia lilás.

Nos últimos 24 anos nossos caminhos se cruzavam pontualmente às 6:15h da manhã. Ao atravessar a Avenida dos Passos era certo que passaria por aquela figura esguia, altiva, de semblante leve, envolta em seus pensamentos. Em todos estes anos, jamais trocamos uma palavra.

No início ensaiei um leve sorriso, um aceno de cabeça, mas depois compreendi que um breve olhar de reconhecimento seria confortável o suficiente. Compartilhávamos algo em nossa rotina. Toda a paisagem de nossa vizinhança cinza era por nós vista em ordem inversa naquele percurso matinal. Para mim, primeiro surgia o bar com sua calçada esburacada e vestígios da noite anterior, depois vinha a loja de ferragens com sua porta de ferro fechada à cadeado e graxa, em seguida o terreno aonde ficavam os latões de lixo e os gatos do senhor Albacete e, por último o muro grafitado da escola - único remedo de alegria por ali.

Ela parecia encolher ligeiramente a cada ano. Mas poderia ser apenas impressão minha. 

O passo era o mesmo, seu ritmo sempre constante. O que me chamava à atenção era o fato de sempre vestir rosa choque. Independente da época do ano. Mudavam as peças, porém nunca o tom. Mudava o corte à moda da época, mas o pink estava sempre presente, monolítico. Houve uma singela modificação no visual em todos estes anos, há alguns meses ela acrescentou ao conjunto um par de óculos de grau com armação rosa em estilo retrô.

Jamais soube para onde ela ia. Mas sabia onde vivia. Em outros momentos do dia a vi entrando no edifício número 16 da Rua ao Lado.

Por vezes me pegava imaginando como seria o interior de seu apartamento. Criava em minha mente um ambiente inteiro cor de rosa, e por longas horas me perdia no detalhes fictícios da decoração monocromática. Confesso que este pensamento ocupou minha mente inúmeras vezes, mesmo antes de avistá-la na rua pela manhã. Móveis, piano, cortinas, flores, copos, paredes, telefone, torradeira e geladeira no mesmo tom pink. Devia encomendar objetos especialmente para si, tingidos com seu tom favorito. Eu imaginava almofadas felpudas cor de rosa sobre o sofá do mesmo tom. As toalhas do banheiro, e provavelmente seus azulejos em composé. Quem sabe uma luminária com lâmpada rosa no cantinho da sala. Ah, a colcha de sua cama seria seguramente rosa. Sua banheira, seus sais de banho. Me imaginava explorando a intimidade de seu lar por pura curiosidade. Provavelmente viveria só. Talvez com um animal de estimação, uma calopsita (rosa). Ou um gatinho com um lacinho de fita pink no pescoço.

Há alguns dias percebi um ligeiro atraso. Quase meia quadra de diferença daquele ponto em que eu poderia mesmo marcar com giz no chão, a linha imaginária que me assegurava de estar no caminho certo e principalmente na hora certa desde que me mudei para o bairro no início dos anos 90. Este pequeno atraso, imperceptível aos olhos dos demais, representava em meus cálculos algo em torno de trinta segundos. Ela poderia ter diminuído a velocidade de seus passos, ou saído de casa mais tarde que o habitual. Porque eu, era certo, estava no horário.

* Texto: Patricia Borges

... (continua) ...